Washington
Novaes, jornalista e autor dos documentários Xingu – A terra mágica e Xingu – A
terra ameaçada, diz que além de o parque sofrer com o avanço de estradas e da
agricultura ao seu redor, os costumes dos índios estão se perdendo devido à
influência da cultura branca.
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Em 1984, o jornalista Washington
Novaes, supervisor geral do programa Repórter Eco, da TV Cultura de São Paulo,
viajou ao Mato Grosso e fez o documentário Xingu – A terra mágica,
sobre os índios e a cultura indígena. A experiência, além do vídeo, resultou no
livroXingu – Uma flecha no coração, pela editora
Brasiliense.
No texto, Novaes conta que a sua
proximidade com as tribos do Xingu começou em 1980, quando foi ao local
produzir um programa para oGlobo Repórter, da Rede Globo de Televisão. A
ideia era mostrar como era o modo de vida no parque indígena, onde não havia registros
de doenças cardiovasculares. "Não havia obesidade, alcoolismo,
sedentarismo e uso de sal com cloreto de sódio, por isso os índios eram
saudáveis. Hoje a realidade é outra", compara Novaes.
Depois da década de 1980, o
jornalista continuou visitando a região e notou a mudança que ocorreu no
parque. "Atualmente, o Xingu está cercado de problemas de fora para
dentro, como também em seu interior", destaca. Segundo Novaes, a área foi
cercada pelo avanço da agropecuária. "O parque é uma ilha envolta por pastos
e cultura de soja, e isso se traduz em muitos problemas, fora o fato de
tentativas periódicas de invasões de madeireiros e garimpeiros", avalia.
Novaes explica que os rios
formadores do Xingu nascem fora do parque e levam para dentro os agrotóxicos dessas
propriedades do entorno, além do assoreamento, e isso já tem consequências,
como aumento de temperatura e prejuízo à principal base de alimentação local,
que é o peixe. "Também estão sendo construídas hidrelétricas nos
principais rios que correm para dentro da área do Xingu. Segundo especialistas,
os peixes não conseguirão subir o rio e em algumas hidrelétricas, como no rio
Kuluene, o reservatório vai alagar uma área importante para a cultura
local", explica o jornalista.
Dentro do próprio Xingu, foram
abertas estradas para facilitar a circulação entre as aldeias e as cidades
próximas ao parque. "Essa situação intensificou o contato com a cultura
branca. Há várias consequências, a primeira delas é que os jovens, ao
absorverem essa cultura, querem usar roupas, ter DVDs, aparelhos de gravação,
dançar forró. E, para isso, é preciso produzir artesanato, como pulseiras,
colares e redes, a fim de adquirir dinheiro para esse consumo", diz
Novaes.
Mais um problema, segundo o
jornalista, é que jovens xinguanos não querem cuidar da agricultura e nem se
interessam mais pelas tradições. "Em praticamente todas as aldeias não há
quem queira ser pajé, pois é um caminho longo e de sacrifícios, conta. O pajé
faz o intermédio dos humanos com o mundo dos espíritos. "Se não houver
isso, as culturas vão desaparecer. Tudo na vida deles tem essa relação. Cada
árvore tem um espírito, as danças e cantos estão neste universo. A cultura está
ameaçada por este ângulo, como também a organização social e política",
afirma Novaes.
Para o jornalista, a sociedade
branca vê os índios pelo que eles não têm e não consegue reconhecer o valor
dessa cultura. "De uma maneira geral, não há delegação de poder. Quem sabe
mais e é mais experiente é respeitado. Todos são livres e têm o seu limite na
liberdade da outra pessoa. Isso é um privilégio extraordinário", diz.
"Eles sabem fazer sua própria casa, a lavoura, caçar, artesanato,
identificar as espécies da natureza. Se o Brasil tivesse lucidez, transformaria
o parque em patrimônio histórico, cultural e ambiental da humanidade.
Ambientalmente, o Xingu é uma ilha de biodiversidade", diz Novaes.
Sobre o trabalho dos irmãos
Villas Bôas, o jornalista diz: "há muita gente que critica que os Villas
Bôas juntaram etnias diferentes, mas na época deles ninguém fez melhor. Muitos
índios poderiam ter sido exterminados, como os Panarás, que foram transferidos
para dentro do Xingu [hoje têm reserva própria]".
Em 2007, Novaes gravou novo
documentário no parque, Xingu – A terra ameaçada, que mostra a
realidade do Xingu atualmente.
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