quarta-feira, 25 de abril de 2012




No Xingu, tribo kamayurá tem mulheres com pajés.

-Na aldeia dos kamayurá, no Xingu, a cerca de 600 km de Cuiabá, em Mato Grosso, as meninas ficam presas por anos nas malocas até se tornarem mulheres. A tradição deste povo as coloca em posições de liderança, e quando elas saem das malocas, viram guardiãs da cultura.
-A aldeia dos Kamayurá   é conhecida como a mais bonita do Xingu. Malocas imensas, cobertas de sapê do telhado ao chão. É no silêncio e no isolamento das malocas que os kamayurá mantêm um de seus rituais mais importantes, o da reclusão de suas meninas.
-Meninas permanecem  dentro da maloca, uma das meninas ( Kamirrã) ficou um ano sem tomar sol. Ela passou por este processo como parte do ritual que já é tradição na aldeia e marca a passagem da infância para a vida adulta. Assim que as meninas kamayurá menstruam pela primeira vez, elas ficam reclusas. São os pais que determinam o tempo de confinamento, quando as meninas aprendem a fazer artesanato e cozinhar.
-As meninas não reclamam do destino traçado para elas. Mesmo que isso exija um pouco de sacrifício. Elas amarram tornozeleiras e joelheiras para engrossar as pernas. A franja comprida esconde o rosto e as meninas reclusas não podem cortar o cabelo até o fim do ritual. As avós cuidam delas o tempo todo e a refeição é reforçada com beiju, mingau e peixe para a menina ganhar corpo de mulher.
-Antigamente, as meninas deixavam a reclusão com casamento arranjado. Agora mudou. Elas é quem  escolhem. Ao sair da maloca,as meninas tem a franja cortada e a rotina passa a ser de muito trabalho. Bem cedo, ela segue com as mulheres da aldeia para buscar água no rio. As mulheres também plantam e colhem a mandioca, base da alimentação dos kamayurá.
-Mapulu já é uma pajé respeitada não só pelos kamayurá. Ela tem ido longe pra socorrer pacientes até mesmo de outras aldeias fora do Xingu. "Paciente nunca morreu na minha mão,” diz ela, que também tem se revelado uma parteira de mão cheia.
-“Os casos em que nós trabalhamos juntos, seguramente eu devo ter feito uns 30% e ela fez os outros 70%. Um excelente parto,” revela o médico responsável pela saúde dos índios, Vitor Tarouco. A força de Mapulu é herança de família. Ela é irmã do cacique Kotok, que consegue conciliar as tradições com a modernidade. A aldeia tem placas de energia solar, antenas de TV e internet. Os indígenas se comunicam com o mundo sem perder os seus valores.

 Encontro de Mulheres Xinguanas

Em todas as sociedades as mulheres desempenham um papel social fundamental de 
salvaguarda da cultura de maneira geral. Elas são responsáveis pelo ensino da língua, boa parte da cultura material, rituais, ritos de passagem e pelos cuidados com a família, crianças, mulheres e anciãos.
Há alguns anos as mulheres xinguanas têm procurado participar de vários fóruns de 
interlocução entre os povos indígenas e a sociedade envolvente, espaços que sempre foram ocupados pelos homens. Têm participado ainda de forma tímida e fragmentada, de cursos de professores e de agentes indígenas de saúde, e têm se manifestado em reuniões das associações indígenas quando se tomam as grandes decisões.
A proposta dos Encontros de Mulheres tem como objetivo principal a melhoria das condições de saúde das comunidades do parque indígena do xingu (PIX) através da participação ativa das mulheres indígenas.
Durante o I Encontro de Mulheres Xinguanas, realizado em novembro de 2003, as mulheres colocaram sua preocupação com relação às DST, incluindo a AIDS, Câncer de colo uterino, desnutrição e doenças da infância. Em geral elas querem ter acesso às informações e às práticas de prevenção e controle destas doenças. As mulheres associam o aumento destes agravos às mudanças no comportamento dos jovens, modo de viver, ao abandono de práticas e ritos tradicionais, como a reclusão pubertária, levando a um aumento das taxas de gravidez precoce, gravidez indesejada 
e desnutrição. Ao longo dos anos temos observado a perda gradual dos conhecimentos relacionados ao auto-cuidado, dos cuidados tradicionais com as crianças e mais recentemente com a gestante, parto e puerpério. Têm diminuído o número de parteiras. 
Nos últimos anos houve um deslocamento das responsabilidades sobre os cuidados da saúde e doença para os profissionais de saúde formados pelo conhecimento científico, como os agentes de saúde e auxiliares de enfermagem indígenas, que em sua maioria são homens e não conseguem ter acesso aos cuidados com as crianças pequenas, gestantes e parturientes. Esta proposta dos Encontros de Mulheres pretende, portanto, a partir de oficinas e cursos modulares, resgatar junto às mulheres indígenas seus conhecimentos tradicionais, na esfera da saúde materno-infantil, valorizando seu papel social, agregar conhecimentos científicos que poderão auxiliar no enfrentamento dos novos problemas de saúde que têm se proliferado nos últimos anos.
Em outubro último aconteceu o II Encontro de Mulheres, no Pólo Diauarum, do DSEI Xingu, tendo sido abordados os temas DST/AIDS e Câncer de colo do útero. Participaram cerca de 70 mulheres de 8 etnias diferentes.
Para o ano de 2006 está previsto o III Encontro de Mulheres quando serão trabalhados os temas: gestação, parto e puerpério.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um parque para os índios







Um marco para a concepção do parque aconteceu em 1952. Nesse ano, Orlando Villas Bôas, o antropólogo Darcy Ribeiro, Heloísa Alberto Torres (1895-1977) e o brigadeiro Raymundo Vasconcellos Aboim apresentaram um anteprojeto de lei ao vice-presidente da época, Café Filho, para que fosse criado o Parque Nacional do Xingu, com apoio do marechal Rondon. A materialização dessa proposta ocorreu em 19 de abril de 1961, com o decreto federal nº 50.455, sancionado pelo presidente Jânio Quadros. Nesse mesmo ano, Leonardo, o mais jovem dos irmãos Villas Bôas, morreu de problemas cardíacos.
Os desafios para o estabelecimento do parque eram muitos, começando pelas dimensões do território e pela diversidade dos troncos linguísticos diferentes que o ocupariam – ficaram definidos o Aruak, o Jê, o Karib e o Tupi. A área foi demarcada abrangendo uma extensão de terras e rios, sendo o principal o Xingu. O parque possui mais de 27 mil quilômetros quadrados e fica localizado na região nordeste do Estado do Mato Grosso. O local exibe uma rica biodiversidade, com vegetações que vão das savanas à floresta amazônica. A demarcação atinge parte dos municípios de Canarana, Paranatinga, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Gaúcha do Norte, Feliz Natal, Querência, União do Sul, Nova Ubiratã e Marcelândia.
Devido às peculiaridades geográficas, o território é dividido em alto, médio e baixo Xingu, em direção do sul ao norte. Com a concepção do parque, algumas etnias acabaram se unindo, criando uma miscigenação que as aproximaram. Mas outros povos, por sua vez, têm pouco contato, devido às distâncias terrestres e diversidade dos troncos linguísticos.


Orlando e Cláudio foram nomeados os primeiros diretores do parque, que também ficou sob a responsabilidade do Serviço de Proteção ao Índio, do Museu Nacional (RJ), do Instituto Oswaldo Cruz, dentre outros órgãos. Os Villas Bôas promoveram o ingresso de algumas etnias para a área do parque, a fim de que "ficassem protegidos nessa delimitação”. Segundo o site Povos Indígenas no Brasil, isso ocorreu com os Kaiabi, Ikpeng e Tapayuna, que foram transferidos para o lado norte.
Outros dois povos, Tapayuna e Panará (da família linguística Jê), também entraram em contato com os irmãos Villas Bôas e chegaram a ser levados para dentro do parque durante a década de 1960. Entretanto, anos depois decidiram sair. No caso dos Panará, conseguiram a homologação de seu antigo território Panará. Já os Tapayuna se deslocaram a partir de 1987 para as aldeias Metyktire e Kremoro, do povo Metyktire, na terra indígena Capoto/Jarina.

A luta indígena continua
As décadas se passaram e as 14 etnias que ficaram concentradas no Xingu, como meio de proteção à sua sobrevivência, enfrentam atualmente uma batalha contínua pela preservação do patrimônio cultural e ambiental indígena. As novas gerações de muitas tribos já assimilam a cultura branca, com a educação bilíngue e o vestuário adotado nas aldeias. Por isso, os mais velhos temem pela perda das raízes ancestrais.
A luta pela vida e pelo espaço também continua por causa da pressão de fazendeiros com o expansionismo da agricultura – em especial da soja –, a extração de borracha e madeira, que agem no entorno do parque. A construção de hidrelétricas em rios que desembocam no Xingu é mais uma preocupação do ponto de vista ambiental e de sustentabilidade desses povos.
Segundo o site Povos Indígenas no Brasil, a ocupação predatória é preocupante. A cultura de soja é uma das que mais se alastra e avança em direção ao parque. Outro alerta no aspecto de preservação diz respeito a rotas rodoviárias Cuiabá-Santarém (BR-163) e BR-158, que circulam próximas ao parque indígena.

(IMAGENS)

















E tudo isso pra poder acabar...



Washington Novaes, jornalista e autor dos documentários Xingu – A terra mágica e Xingu – A terra ameaçada, diz que além de o parque sofrer com o avanço de estradas e da agricultura ao seu redor, os costumes dos índios estão se perdendo devido à influência da cultura branca.



Em 1984, o jornalista Washington Novaes, supervisor geral do programa Repórter Eco, da TV Cultura de São Paulo, viajou ao Mato Grosso e fez o documentário Xingu – A terra mágica, sobre os índios e a cultura indígena. A experiência, além do vídeo, resultou no livroXingu – Uma flecha no coração, pela editora Brasiliense.
No texto, Novaes conta que a sua proximidade com as tribos do Xingu começou em 1980, quando foi ao local produzir um programa para oGlobo Repórter, da Rede Globo de Televisão. A ideia era mostrar como era o modo de vida no parque indígena, onde não havia registros de doenças cardiovasculares. "Não havia obesidade, alcoolismo, sedentarismo e uso de sal com cloreto de sódio, por isso os índios eram saudáveis. Hoje a realidade é outra", compara Novaes.
Depois da década de 1980, o jornalista continuou visitando a região e notou a mudança que ocorreu no parque. "Atualmente, o Xingu está cercado de problemas de fora para dentro, como também em seu interior", destaca. Segundo Novaes, a área foi cercada pelo avanço da agropecuária. "O parque é uma ilha envolta por pastos e cultura de soja, e isso se traduz em muitos problemas, fora o fato de tentativas periódicas de invasões de madeireiros e garimpeiros", avalia.
Novaes explica que os rios formadores do Xingu nascem fora do parque e levam para dentro os agrotóxicos dessas propriedades do entorno, além do assoreamento, e isso já tem consequências, como aumento de temperatura e prejuízo à principal base de alimentação local, que é o peixe. "Também estão sendo construídas hidrelétricas nos principais rios que correm para dentro da área do Xingu. Segundo especialistas, os peixes não conseguirão subir o rio e em algumas hidrelétricas, como no rio Kuluene, o reservatório vai alagar uma área importante para a cultura local", explica o jornalista.
Dentro do próprio Xingu, foram abertas estradas para facilitar a circulação entre as aldeias e as cidades próximas ao parque. "Essa situação intensificou o contato com a cultura branca. Há várias consequências, a primeira delas é que os jovens, ao absorverem essa cultura, querem usar roupas, ter DVDs, aparelhos de gravação, dançar forró. E, para isso, é preciso produzir artesanato, como pulseiras, colares e redes, a fim de adquirir dinheiro para esse consumo", diz Novaes.  
Mais um problema, segundo o jornalista, é que jovens xinguanos não querem cuidar da agricultura e nem se interessam mais pelas tradições. "Em praticamente todas as aldeias não há quem queira ser pajé, pois é um caminho longo e de sacrifícios, conta. O pajé faz o intermédio dos humanos com o mundo dos espíritos. "Se não houver isso, as culturas vão desaparecer. Tudo na vida deles tem essa relação. Cada árvore tem um espírito, as danças e cantos estão neste universo. A cultura está ameaçada por este ângulo, como também a organização social e política", afirma Novaes.
Para o jornalista, a sociedade branca vê os índios pelo que eles não têm e não consegue reconhecer o valor dessa cultura. "De uma maneira geral, não há delegação de poder. Quem sabe mais e é mais experiente é respeitado. Todos são livres e têm o seu limite na liberdade da outra pessoa. Isso é um privilégio extraordinário", diz. "Eles sabem fazer sua própria casa, a lavoura, caçar, artesanato, identificar as espécies da natureza. Se o Brasil tivesse lucidez, transformaria o parque em patrimônio histórico, cultural e ambiental da humanidade. Ambientalmente, o Xingu é uma ilha de biodiversidade", diz Novaes.
Sobre o trabalho dos irmãos Villas Bôas, o jornalista diz: "há muita gente que critica que os Villas Bôas juntaram etnias diferentes, mas na época deles ninguém fez melhor. Muitos índios poderiam ter sido exterminados, como os Panarás, que foram transferidos para dentro do Xingu [hoje têm reserva própria]".
Em 2007, Novaes gravou novo documentário no parque, Xingu – A terra ameaçada, que mostra a realidade do Xingu atualmente.



A aventura dos três irmãos Villas Bôas


A expedição Roncador-Xingu teve início a partir de Uberlândia, em Minas Gerais, e foi instituída pela Fundação Brasil Central (FBC) durante o Estado Novo, que visava consolidar a soberania nacional ao ligar o Brasil Central ao Amazonas. Leonardo, Cláudio e Orlando Villas Bôas embrenharam-se nessa aventura pelas matas para auxiliar na demarcação e formação de núcleos populacionais "brancos" enquanto fingiam-se de sertanejos.



Na viagem, os irmãos se defrontaram com a realidade de um Brasil "nativo", que até então era desconhecido para eles. Os Villas Bôas Conheceram primeiramente os índios xavantes e, ao longo dos anos, mais outros 14 povos indígenas que representam uma das mais respeitadas diversidades de troncos linguísticos do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): Aruak ou Arawak, Jê, Karib e Tupi.
Nesse grupo estão os Kamaiurá e Kaiabi (família Tupi-Guarani); Juruna (tronco Tupi); Aweti (tronco Tupi); Mehinako, Wauja e Yawalapiti (família Aruak); Kalapalo, Ikpeng, Kuikuro, Matipu e Nahukwá (família Karib); Suyá (família Jê); Trumai (língua isolada). Segundo o site Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA), existem mais de 4 mil índios na região do Xingu (dados de 2002).




Em 1952, um anteprojeto de lei para a criação do Xingu
Quando os irmãos Villas Bôas chegaram ao norte do Estado do Mato Grosso, os índios que habitavam a porção do Brasil Central estavam sendo dizimados por diversas doenças, como gripes, disenterias e surtos epidêmicos, devido à intervenção branca em suas terras desde o século XIX. Ao se defrontarem com essa situação, os Villas Bôas decidiram iniciar uma campanha para a preservação da população, que continuou por décadas, seguindo um modelo protecionista.
Leonardo, Cláudio e Orlando ultrapassaram o objetivo oficial da expedição federal. No livro A Marcha para o Oeste – A epopeia da expedição Roncador-Xingu, de autoria de Orlando e Cláudio Villas Bôas, os irmãos descrevem que o primeiro contato do grupo de sertanistas com índios xavantes aconteceu em 25 de julho de 1945. Segundo eles, o contexto foi pouco amistoso, pois membros da equipe dispararam tiros para o alto, o que causou um "esboço" de reação de ataque dos índios, mas sem vítimas.



Quanto mais adentravam pelas matas, novas etnias iam surgindo, começando pelos índios Kalapalo, na região do rio Kuluene, um dos afluentes do Xingu. Em março de 1948, a expedição Roncador-Xingu foi extinta pelo governo Vargas, mas os irmãos Villas Bôas, que a essa altura já haviam sido nomeados representantes do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) do Alto Xingu, pelo Marechal Cândido Rondon, iniciaram uma nova empreitada na expedição Xingu-Tapajós, quando fizeram contato com os índios Juruna.
Nessa época, o cientista ucraniano Noel Nutels (1913-1973) juntou-se ao grupo. Ao mesmo tempo, as primeiras ideias de criação do parque começam a ser idealizadas pelos sertanistas com ajuda do brigadeiro Raymundo Vasconcelos Aboim (1898-1990) e do antropólogo Eduardo Galvão.

A chegada dos brancos


A chegada dos brancos
Antes de os irmãos Villas Bôas se aventurarem no interior do País com a expedição da década de 1940, a região do Xingu já havia sofrido intervenções de homens brancos. Um dos primeiros a pisar naquelas terras foi o desenhista e explorador alemão Karl von den Steinen (1855-1929) que, em 1884, acompanhado do geógrafo Otto Claus, partiu de Cuiabá e desceu o rio Xingu, estudou os índios e classificou os Bakairi como originários dos Caraíbas e não dos Tupi-Guaranis, como se acreditava no século XIX.















Visão de seu próprio mundo

Os índios Awajatu e Winti falam sobre o cotidiano das tribos do Xingu e a luta para preservar as tradições e os idiomas indígenas


Os sertanistas, pesquisadores e antropólogos não são os únicos a se preocupar com o destino dos povos indígenas. A preservação da cultura dos índios é uma luta travada diariamente nas aldeias. O índio Awajatu Aweti, da tribo Aweti (localizada no centro do Alto Xingu, falante da língua tupi) é cacique e professor bilíngue (tupi/português). "Desde 1996, ensinamos nossas crianças no tronco tupi e o português para que saibam entender e lidar com o 'mundo de fora'. Mas nem por isso deixamos a luta pela preservação de nossa cultura e crença", diz. Segundo Awajatu, os índios chegaram a fazer uma cartilha tupi, que é direcionada às crianças a partir dos 5 anos de idade.
Os festejos e os cantos indígenas também são mantidos, como a Tawarana (dança do papagaio), além da dança Taquara, que é um meio de celebrar a alegria na aldeia. "Nesses momentos, não são deixados de lado o cocar, a pintura, a utilização de bambu, dentre outros adereços típicos", diz Awajatu. Ele conta que a cultura branca é presente no Xingu, por meio da TV e uso de roupas. "Para evitar a influência ocidental e da tecnologia, estamos mantendo nossos traços culturais, dialogando em tupi e praticando as nossas danças. A hora de assistir à televisão é controlada. Usamos aparelhos de DVD, por exemplo, mas para mostrar vídeos sobre a nossa tradição. " 
O cacique afirma que a presença da monocultura da soja e extração de madeira no entorno do Xingu, desde a década de 1980, é um fator que preocupa todos os índios da região. "Se não fosse pela demarcação do Parque Indígena do Xingu, estaríamos enfrentando muito mais dificuldade", reconhece. "Representantes das 14 etnias que vivem lá dentro promovem reuniões para discutir os problemas, como a proximidade de hidrelétricas, dentre elas a construída no rio Kuluene. Por causa dela, a nossa água está secando aos poucos. Temos medo de que os peixes acabem, pois são nosso alimento", conta.
Para o cacique, o trabalho dos irmãos Villas Bôas foi importante para a causa indígena. "Mostrou que nós somos seres humanos e não permitiu que os missionários catequizassem o Xingu. Por outro lado, acabou permitindo a introdução de tecnologias e ferramentas que acabaram sendo jogadas nos nossos rios", afirma.
Winti Suya, da tribo Suya (localizada entre o Baixo e Médio Xingu, pertencente ao tronco linguístico macro-jê), é presidente da Associação Indígena Kisedjê. Ele conta que a preservação do idioma é uma luta constante em sua tribo. "Nossa língua ainda é forte: apenas 20 dos cerca de 480 índios que vivem em nossa aldeia falam português", diz. Entretanto, de acordo com o índio, outros reflexos dos costumes brancos já foram introduzidos lá, como o uso de roupas.
"Nossa preocupação maior é a respeito do meio ambiente, conscientizar os fazendeiros sobre os problemas da nossa aldeia. A menos de 5 quilômetros de distância já existe cultivo de soja", relata Winti. Segundo ele, as mudanças na natureza também são reveladas nas espécies de fauna local: "atualmente quase não vemos a queixada ou o porcão do mato, que andava em bando por lá", diz.
Para defender seus direitos, Winti diz que os índios começaram a recorrer ao apoio de organizações não governamentais, como o Instituto Socioambiental, dentre outras. "A ideia não é só defender os Suya, mas toda a comunidade indígena", diz.

Como surgiu o Parque Xingu





A criação do primeiro parque indígena brasileiro, o Parque Indígena do Xingu, em 1961, no Mato Grosso, foi possível graças à mobilização iniciada praticamente duas décadas antes pelos irmãos Leonardo, Cláudio e Orlando Villas Bôas. Anônimos e disfarçados de sertanejos, esses paulistas de classe média se enveredaram na expedição Roncador-Xingu, organizada em 1943 pelo governo de Getúlio Vargas. A campanha também ficou conhecida como “Marcha para o Oeste” e tinha como objetivo a ocupação do interior do Brasil.
Em um primeiro momento, os três irmãos candidataram-se para participar da missão, mas foram impedidos pelos organizadores, pois se tratavam nitidamente de pesquisadores e não de homens que queriam tentar uma vida nova em terras desocupadas. Por isso, os Villas Bôas deixaram as barbas cresceram, vestiram-se com roupas simples e fingiram ser analfabetos para conseguirem autorização para viajar com a expedição. Foi assim que começou a missão de Leonardo, Cláudio e Orlando que, mais tarde, com a participação do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), resultou na demarcação do parque indígena.

Dedicação total ao povo indígena.

Os irmãos Villas Bôas, indicados duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz, receberam elogios e críticas negativas pela atuação no Xingu. Marina e Noel, viúva e filho de Orlando, falam sobre as anotações deixadas pelo sertanista e o projeto de criar o Instituto Orlando Villas Bôas.

Orlando (1916-2002) e Cláudio Villas Bôas (1918-1998) estiveram à frente da direção do Parque Indígena do Xingu até 1975. Apesar de os irmãos terem sido reconhecidos mundialmente pelo seu trabalho, que os levou a serem indicados por duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz, eles também receberam muitas críticas. Ao mesmo tempo em que os Villas Bôas foram elogiados pela preservação dos povos indígenas e pela iniciativa de organizar um programa de saúde pública, como vacinações e assistência médica para os índios, que morriam de gripe, disenterias e surtos de sarampo na década de 1950, devido ao contato com os brancos, os irmãos foram duramente criticados por terem fornecido ferramentas e bens materiais aos índios e interferirem no poder interno das aldeias. Segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio, instituída em 1967, em substituição ao Serviço de Proteção ao Índio – SPI), isso teria contribuído para diminuir a produção artesanal tradicional e a degradação da cultura indígena.
A vida dos Villas Bôas era tão atrelada ao Xingu que, nos anos 1960, quando Orlando conheceu sua mulher, a enfermeira Marina Lopes de Lima Villas Bôas, atualmente com 71 anos, logo a levou para trabalhar no parque ao seu lado. Em 1963, Marina seguiu para o Xingu e foi a primeira enfermeira a atuar na saúde local. "O Xingu foi a extensão da minha casa. A sociedade e o governo precisam avaliar o quanto os índios têm a nos ensinar, quanto à estrutura social e visão de mundo", diz ela.
Noel Villas Boas, de 33 anos, filho de Orlando, conta que o pai guardava seis cadernos de diários (preservados postumamente), que começou a escrever em 1943, ano da primeira expedição ao Xingu. Parte dessas anotações virou livros, inclusive o póstumoOrlando Villas Bôas – expedições, reflexões e registros, organizado por Orlando Villas Bôas Filho, em 2006. 
No acervo preservado pela família são mantidas relíquias, como correspondências entre o sertanista e o marechal Rondon, os antropólogos Darcy Ribeiro e Claude Lévi-Strauss, e centenas de fotos e registros. "Estamos no processo de criação do Instituto Orlando Villas Bôas, para tornar esse material disponível ao público. Sobre a expedição Roncador-Xingu praticamente não há material similar no Brasil, é um hiato de 20 anos na história brasileira", afirma Noel, que visita anualmente o Parque Indígena do Xingu.