A chegada
dos brancos
Visão de seu próprio mundo
Os índios
Awajatu e Winti falam sobre o cotidiano das tribos do Xingu e a luta para
preservar as tradições e os idiomas indígenas
|
|
Os
sertanistas, pesquisadores e antropólogos não são os únicos a se preocupar com
o destino dos povos indígenas. A preservação da cultura dos índios é uma luta
travada diariamente nas aldeias. O índio Awajatu Aweti, da tribo Aweti
(localizada no centro do Alto Xingu, falante da língua tupi) é cacique e
professor bilíngue (tupi/português). "Desde 1996, ensinamos nossas
crianças no tronco tupi e o português para que saibam entender e lidar com o
'mundo de fora'. Mas nem por isso deixamos a luta pela preservação de nossa
cultura e crença", diz. Segundo Awajatu, os índios chegaram a fazer uma
cartilha tupi, que é direcionada às crianças a partir dos 5 anos de idade.
Os
festejos e os cantos indígenas também são mantidos, como a Tawarana (dança do
papagaio), além da dança Taquara, que é um meio de celebrar a alegria na
aldeia. "Nesses momentos, não são deixados de lado o cocar, a pintura, a
utilização de bambu, dentre outros adereços típicos", diz Awajatu. Ele
conta que a cultura branca é presente no Xingu, por meio da TV e uso de roupas.
"Para evitar a influência ocidental e da tecnologia, estamos mantendo
nossos traços culturais, dialogando em tupi e praticando as nossas danças. A
hora de assistir à televisão é controlada. Usamos aparelhos de DVD, por exemplo,
mas para mostrar vídeos sobre a nossa tradição. "
O cacique
afirma que a presença da monocultura da soja e extração de madeira no entorno
do Xingu, desde a década de 1980, é um fator que preocupa todos os índios da
região. "Se não fosse pela demarcação do Parque Indígena do Xingu,
estaríamos enfrentando muito mais dificuldade", reconhece.
"Representantes das 14 etnias que vivem lá dentro promovem reuniões para
discutir os problemas, como a proximidade de hidrelétricas, dentre elas a
construída no rio Kuluene. Por causa dela, a nossa água está secando aos
poucos. Temos medo de que os peixes acabem, pois são nosso alimento",
conta.
Para o
cacique, o trabalho dos irmãos Villas Bôas foi importante para a causa
indígena. "Mostrou que nós somos seres humanos e não permitiu que os
missionários catequizassem o Xingu. Por outro lado, acabou permitindo a
introdução de tecnologias e ferramentas que acabaram sendo jogadas nos nossos
rios", afirma.
Winti
Suya, da tribo Suya (localizada entre o Baixo e Médio Xingu, pertencente ao
tronco linguístico macro-jê), é presidente da Associação Indígena Kisedjê. Ele
conta que a preservação do idioma é uma luta constante em sua tribo.
"Nossa língua ainda é forte: apenas 20 dos cerca de 480 índios que vivem
em nossa aldeia falam português", diz. Entretanto, de acordo com o índio,
outros reflexos dos costumes brancos já foram introduzidos lá, como o uso de
roupas.
"Nossa
preocupação maior é a respeito do meio ambiente, conscientizar os fazendeiros
sobre os problemas da nossa aldeia. A menos de 5 quilômetros de distância já
existe cultivo de soja", relata Winti. Segundo ele, as mudanças na
natureza também são reveladas nas espécies de fauna local: "atualmente
quase não vemos a queixada ou o porcão do mato, que andava em bando por
lá", diz.
Para
defender seus direitos, Winti diz que os índios começaram a recorrer ao apoio
de organizações não governamentais, como o Instituto Socioambiental, dentre
outras. "A ideia não é só defender os Suya, mas toda a comunidade
indígena", diz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário