segunda-feira, 23 de abril de 2012

A chegada dos brancos


A chegada dos brancos
Antes de os irmãos Villas Bôas se aventurarem no interior do País com a expedição da década de 1940, a região do Xingu já havia sofrido intervenções de homens brancos. Um dos primeiros a pisar naquelas terras foi o desenhista e explorador alemão Karl von den Steinen (1855-1929) que, em 1884, acompanhado do geógrafo Otto Claus, partiu de Cuiabá e desceu o rio Xingu, estudou os índios e classificou os Bakairi como originários dos Caraíbas e não dos Tupi-Guaranis, como se acreditava no século XIX.















Visão de seu próprio mundo

Os índios Awajatu e Winti falam sobre o cotidiano das tribos do Xingu e a luta para preservar as tradições e os idiomas indígenas


Os sertanistas, pesquisadores e antropólogos não são os únicos a se preocupar com o destino dos povos indígenas. A preservação da cultura dos índios é uma luta travada diariamente nas aldeias. O índio Awajatu Aweti, da tribo Aweti (localizada no centro do Alto Xingu, falante da língua tupi) é cacique e professor bilíngue (tupi/português). "Desde 1996, ensinamos nossas crianças no tronco tupi e o português para que saibam entender e lidar com o 'mundo de fora'. Mas nem por isso deixamos a luta pela preservação de nossa cultura e crença", diz. Segundo Awajatu, os índios chegaram a fazer uma cartilha tupi, que é direcionada às crianças a partir dos 5 anos de idade.
Os festejos e os cantos indígenas também são mantidos, como a Tawarana (dança do papagaio), além da dança Taquara, que é um meio de celebrar a alegria na aldeia. "Nesses momentos, não são deixados de lado o cocar, a pintura, a utilização de bambu, dentre outros adereços típicos", diz Awajatu. Ele conta que a cultura branca é presente no Xingu, por meio da TV e uso de roupas. "Para evitar a influência ocidental e da tecnologia, estamos mantendo nossos traços culturais, dialogando em tupi e praticando as nossas danças. A hora de assistir à televisão é controlada. Usamos aparelhos de DVD, por exemplo, mas para mostrar vídeos sobre a nossa tradição. " 
O cacique afirma que a presença da monocultura da soja e extração de madeira no entorno do Xingu, desde a década de 1980, é um fator que preocupa todos os índios da região. "Se não fosse pela demarcação do Parque Indígena do Xingu, estaríamos enfrentando muito mais dificuldade", reconhece. "Representantes das 14 etnias que vivem lá dentro promovem reuniões para discutir os problemas, como a proximidade de hidrelétricas, dentre elas a construída no rio Kuluene. Por causa dela, a nossa água está secando aos poucos. Temos medo de que os peixes acabem, pois são nosso alimento", conta.
Para o cacique, o trabalho dos irmãos Villas Bôas foi importante para a causa indígena. "Mostrou que nós somos seres humanos e não permitiu que os missionários catequizassem o Xingu. Por outro lado, acabou permitindo a introdução de tecnologias e ferramentas que acabaram sendo jogadas nos nossos rios", afirma.
Winti Suya, da tribo Suya (localizada entre o Baixo e Médio Xingu, pertencente ao tronco linguístico macro-jê), é presidente da Associação Indígena Kisedjê. Ele conta que a preservação do idioma é uma luta constante em sua tribo. "Nossa língua ainda é forte: apenas 20 dos cerca de 480 índios que vivem em nossa aldeia falam português", diz. Entretanto, de acordo com o índio, outros reflexos dos costumes brancos já foram introduzidos lá, como o uso de roupas.
"Nossa preocupação maior é a respeito do meio ambiente, conscientizar os fazendeiros sobre os problemas da nossa aldeia. A menos de 5 quilômetros de distância já existe cultivo de soja", relata Winti. Segundo ele, as mudanças na natureza também são reveladas nas espécies de fauna local: "atualmente quase não vemos a queixada ou o porcão do mato, que andava em bando por lá", diz.
Para defender seus direitos, Winti diz que os índios começaram a recorrer ao apoio de organizações não governamentais, como o Instituto Socioambiental, dentre outras. "A ideia não é só defender os Suya, mas toda a comunidade indígena", diz.

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